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Política, filosofia, relações humanas, cinema, música e o que mais der na te- lha deste palpiteiro.
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Made In China

Pare o que está fazendo e olhe para a sua mesa. Agora, olhe embaixo do seu notebook, mouse, teclado, etc, e conte quantas vezes você leu a expressão "Made In China". Só aqui na minha, contei seis. Esta curiosidade me bateu esses dias: e a China? Ouvimos inúmeras histórias sobre como ela se transformou na primeira maravilha do mundo econômico, com seus 10% de crescimento ao ano e blá blá blá; por outro lado, também ouvimos falar que a situação dos trabalhadores chineses já não é lá essa maravilha toda. Eu, interessado que sou em saber como são feitas as coisas que compro (e na falta de coisa melhor pra fazer), me pus a pesquisar.

Eu não esperava descobrir coisas boas. Vamos combinar, mesmo nunca tendo lido nada a respeito, ninguém é tonto de achar que as bugigangas chinesas vêm com esse precinho tão camarada graças ao fantasma do Mao Tsé-Tung. É mão-de-obra barata, a gente sabe. Ainda assim, fiquei assustado. Estamos tão acostumados a ver o absurdo nível de vida do trabalhador brasileiro que fica até difícil imaginar coisa pior. Pelo visto, cabe aqui aquela famosa frase: sempre dá pra piorar, só falta imaginação.

Você acha que ganha pouco? Imagine o que é ganhar 65 centavos de dólar por hora de trabalho.[1] Acha que trabalha muito? Imagine o que são turnos de 10 a 14 horas por dia, sete dias por semana.[2] Acha que seu chefe é um porre? Imagine se ele pudesse te proibir de conversar, ouvir música ou até mesmo de ir ao banheiro.[3] Já esteve morto de tanto trabalhar? Não, não esteve. Mas cerca de 600.000 chineses por ano já estiveram.[4] Literalmente. Não, eu não estou brincando. É sério. Morreram de tanto trabalhar. É tão comum por lá que existe até uma palavra em mandarim pra isso: guolaosi - morte por exaustão. Google it.

Eu poderia ficar aqui horas falando sobre as condições de trabalho chinesas que, se não análogas à escravidão, poderiam no mínimo ser consideradas uma afronta à dignidade humana. Mas acho que já deu pra ter uma idéia. E meu objetivo aqui é outro. É refletir sobre a pergunta que talvez já esteja passando pela sua cabeça a essa altura: e eu com isso? Bom, em princípio, nada. Eu não vou cair naquele maniqueísmo barato de dizer que, em solidariedade, deveríamos todos empilhar nossos gagdets e fazer uma imensa fogueira com eles. Eu mesmo estou escrevendo em um neste instante. Por outro lado, ignorar o problema não o resolve. O que fazer então?

Nesse tipo de situação, quase sempre nossa resposta continua sendo "nada". Afinal, pensamos nós, somos apenas consumidores. Mesmo que eu resolva, sei lá, boicotar a Apple, outros tantos milhões vão continuar comprando dela e meu gesto não vai ter valido de nada. Não adianta parar minha vida por isso, portanto eu continuo comprando. Essa costuma ser a desculpa oficial. E não vou negar, é um raciocínio razoável. Acontece que é uma meia-verdade. Diria mais: não chega a ser um quarto de verdade. Explico.

De uns tempos pra cá, quando a gente se tocou que estava torrando muito mais recursos naturais do que o nosso planetinha é capaz de fornecer, virou moda falar de sustentabilidade. A onda agora é ser ecologicamente correto. E essa onda foi tão forte que as empresas perceberam que nós, consumidores, damos preferência para produtos chamados de "sustentáveis". Mesmo pagando um pouco a mais por eles. Afinal, é uma questão de sobrevivência. As empresas, antenadíssimas, logo começaram a criar cada vez mais destes produtos com "selinho verde". E fazendo uma imensa publicidade em cima. É extrato de banco em papel reciclado, sacolinha de mercado reutilizável, enfim, a lista vai longe.

Mas ei! - isso me fez pensar - então as empresas ouvem sim o que nós temos a dizer. Não individualmente, claro, mas coletivamente. Afinal, nós somos os consumidores. Nós criamos a demanda. E a demanda pode ser qualquer coisa que nos der na telha, contanto que a gente esteja disposto a pagar por ela. Se houvesse demanda por um carro que só anda de marcha ré, meu amigo, amanhã mesmo você poderia encomendar o seu Volkswagen Rézingu na concessionária.

E se isso funcionou tão bem na questão ecológica, porque não aplicar a mesma idéia para a mão-de-obra chinesa? Algo nos mesmos moldes, mas que tivesse como objetivo proteger os trabalhadores que dão um duro danado pra gente poder curtir nossos amados gadgets? Poderia haver um selo "guolaosi-free", que viesse nos produtos feitos por fábricas que tratam seus operários com o mínimo de decência. Já existem, inclusive, organizações como a China Labor Watch[5] que poderiam se encarregar de fazer auditorias - isentas, não aquelas subornadas - para garantir a autenticidade do selo. Parece uma ótima idéia, não é? Bem...

A verdade é que não daria certo. Por que? Porque nós, consumidores, não estamos nem aí. Não existe demanda pra isso. Existe, sim, demanda pra que o nosso smartphone chegue cada vez mais barato. E rápido. Não importa se custar o dedo de uma ou duas crianças chinesas. Como eu disse lá no comecinho, não é de hoje que todo mundo sabe disso. Eu, você, todos nós. E se nesse tempo todo não surgiu uma vontade coletiva de mudar essa situação, é porque a vontade não existe. Ninguém pagaria mais caro por isso. Simples assim. Ah, mas e no caso da sustentabilidade, por que deu certo? Porque, repito, ninguém é tonto. Se acabar o petróleo do mundo, fodeu e ponto. As reservas não vão encher de novo só porque o Steve Jobs botou pressão nos fornecedores. O planeta está cagando e andando pras nossas demandas. E no fundo a gente sabe disso. Por isso, com o planeta é melhor não vacilar mais. Agora, com os operários chineses? Pff, fala sério. Morre um, tem um bilhão de reserva. E sempre nasce mais.[6]

A verdade é que eu, você, todos nós somos coniventes. Como aquelas sinhazinhas da época da escravidão, que até tinham dó dos negros, mas não faziam lá muita questão que eles fossem libertados. Senão quem ia fazer a colheita, servir a mesa, limpar o casarão? Complicado. Mas que ficou mais fácil ignorar a senzala agora que ela está a mais de um continente de distância, isso ficou. Então assim seguimos a vida, você comprando o seu iPhone, eu o meu Samsung Galaxy, com a consciência leve e tranquila de que todos estes problemas estão bem longe do nosso alcance. Felizmente.

O historiador Eric Hobsbawm, morto em outubro, disse que não olhava com esperança para os próximos anos. Por que será?